Nus com a mão no bolso

Olá galerinha,

Essa semana pipocou na web por aí esta notícia:

http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/noticia/2014/11/mulher-e-flagrada-novamente-andando-pelada-em-porto-alegre-4643623.html

Ela é sobre a segunda ocorrência de uma mulher correr nua pelas ruas de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Já da primeira vez a repercussão na web foi bem grande. Em tempos de web 2.0 (parece que já nos encaminhamos para a 3.0…), fui logo observar alguns comentários sobre os dois eventos. De cara já salta aos olhos a quantidade de comentários apagados. Um deles possuía uma resposta que sugere o seu teor:

Vadia por querer andar sem roupa para se refrescar? Até tua mãe deve querer ficar peladora nesse calor, mané!!

Provavelmente o sujeito deve ter chamado a moça de vadia.

Outros comentários parecem também se remeter ao aspecto sexual da nudez, como este aqui:

Corre lá em casa, te receberei com a porta do quarto aberta

Disto já podemos iniciar nosso papo de hoje. Por que a nudez em público vira notícia?

Nudez: um assunto complexo

Todos aprendemos muito jovens que devemos usar roupas. Você já deve ter ido em um chá de bebê. É presente recorrente as pequenas roupinhas. Se não foi, pelo menos deve ter visto um bebê recém-nascido, provavelmente vestido.

Você pode argumentar que as roupas tem a função de nos manter aquecidos e protegidos. Porém, precisamos estar aquecidos neste ambiente?

Lugar quente

Praia precisa de roupa?

Imagino que na praia exista calor suficiente para manter nossa temperatura bastante acima do necessário. Entramos na água, inclusive, para nos refrescar (como está fazendo a moça aí da foto). Você provavelmente concorda comigo que os trajes dela não esquentam ninguém (talvez um outro tipo de calor, mas isso é outra história).

Parece claro que as roupas ultrapassam a função unicamente fisiológica que têm, servindo para outros propósitos.  Mas qual seria, então, esta outra função?

A função social da roupa

Esta outra função é social. Ela responde a uma demanda do grupo ao qual estamos inseridos que se delineou não de agora, mas como resultado de muitos anos interações e convívio. O resultado é que a roupa, hoje, não mais serve apenas para sanar nossa necessidade fisiológica, mas também para responder a uma demanda social. A roupa que vestimos, e que compramos lá na loja ou mandamos fazer no alfaiate (se formos muito ricos), diz algo sobre nós. Quase como uma mensagem que emitimos sobre quem somos para aqueles que nos rodeiam e que é receptada por eles, que a respondem. As roupas nos representam.

Sou o que visto

As demandas sociais podem ser de vários tipos ou ter várias origens para cada um de nós.  Quando um pai torce o nariz para a roupa da filha, estamos vendo uma demanda familiar. Um rapaz que se veste como o rapper do momento pode estar buscando aceitação de seu grupo de amigos. Até os uniformes de uma empresa tem uma função no contexto daquela empresa e diz algo sobre o sujeito que o veste fora dela. Enfim, o modo de vestir, numa sociedade democrática como a nossa, pode ser visto como uma expressão da liberdade de ser. Estes modos de vestir não são estáticos, imutáveis. Pelo contrário, este processo está em constante mudança.

Relacionado a isto está o tabu da nudez.

O tabu da nudez

Eu já falei sobre tabu aqui com vocês, quando falamos sobre a virgindade, mas não custa refrescar a memória. O tabu é uma regra, um preceito enraizado tão profundamente em uma cultura que fica difícil separá-los. Também é difícil determinar a origem de um tabu.

Essa regra, não raro de cunho religioso, é levada a cabo de forma irracional, muitas vezes. É algo que um grupo faz sem saber direito por qual motivo. Ela não existe sem uma razão, mas na maioria das vezes não é pela razão que se costuma atribuir. Por exemplo, a virgindade é um tabu que teria a função declarada de manter a “pureza” da garota. Mas a razão real por trás dela tem a ver com a questão de descendência.

No caso da nudez temos um tabu também. Você já deve ter ouvido a frase “Toda nudez será castigada”. Não é raro que os tabus apareçam na cultura, seja como forma de reforçá-los ou questionar sua existência. E não raro também os tabus, por estarem tão enraizados na sociedade que os mantem, acabam se traduzindo em regras formais de como agir naquela sociedade. Em outras palavras, os tabus podem dar origem à leis. E quando não dão, por moldarem também a maneira de pensar e agir das pessoas de modo geral, podem respaldar interpretações da lei. No código penal brasileiro, artigo 233 temos o seguinte:

Ato obsceno

Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Escrito ou objeto obsceno

Art. 234 – Fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno:

Pena – detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

§ 1º. Incorre na mesma pena quem:

I – vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo;

II – realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter;

III – realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno.

Esta é a porção da código penal que comumente é utilizada para casos de nudez em público. Logo vemos que a lei é bastante ampla, não especificando o que obsceno seria. Isto se deve ao fato de as normas de conduta social se modificarem com o tempo, assim como se modifica a própria sociedade.  Mas atualmente a interpretação da lei para nudez em público ainda tem sido no sentido de ser este um ato obsceno, conforme demonstra (e contesta) uma advogada neste artigo.

Finalizando…

Este assunto dá pano pra mangas e vai longe se quisermos. Mas quanto aos fatos das notícias que eu trouxe, fica ainda claro que o tabu da nudez não se desfará imediatamente, muito por a nudez ser relacionada à sexualidade, como vimos nos comentários, sendo que a própria sexualidade já tem sua carga de tabu e repressão social. E claro, se pararmos para pensar, alguém que se mostra nu publicamente está passando uma mensagem, da mesma forma como uma outra vestimenta qualquer também passa. Resta saber que mensagem é esta.

 

 

Publicado em comportamento, Identidade, mídia, sexo e leis, sexo na cultura | Marcado com , | Deixe um comentário

Pedofilia: o abuso sexual

Olá pessoal!

Continuando nossa saga sobre a pedofilia, conforme comentei no post anterior, vamos saber mais sobre aquele que dá vazão, atua na realidade com base em seu desejo sexual por crianças. Vejamos mais sobre os abusadores.

A criança e o agressor

O abusador

Abuso sexual de crianças

O abuso sexual infantil segue a mesma linha do psicodiagnóstico. Em um caso deste tipo teremos a vítima, a criança com idade de 13 anos ou menos, e o agressor, uma pessoa com pelo menos 16 anos e 5 anos mais velho que a vítima. É preciso ainda, como não poderia deixar de ser, que o crime aconteça (em direito isto é um pouco mais complexo do que isto que escrevi aqui). Ou seja, não se pode falar em abuso sem que o agressor cometa ato contra a vítima, se o evento fica só na imaginação.

“Mas e se a criança ‘incentiva’ o agressor?”. Eu já ouvi, mais corriqueiramente do que gostaria, pessoas tentando justificar o abuso sexual infantil com este tipo de argumentação, talvez por causa da definição de abuso sexual “comum”. No abuso sexual existe a prática de ato sexual sem o consentimento da vítima ou por uso de violência física ou moral. Para o abuso sexual infantil isto é diferente, pois mesmo a vítima dando anuência para o ato, ainda assim se fala em abuso sexual. Olhando mais friamente, nem é tão diferente, já que o entendimento é de que uma criança não teria o “esclarecimento” para dar permissão para um ato assim. Esclarecimento este que não é simplesmente linguístico, mas toda a compreensão mais profunda que é mais complexa e que a gente só alcança depois de certa maturação.

Os abusadores

É outro tópico que costuma causar polêmica. Comumente se pensa no abusador como um homem, um sujeito do sexo masculino. Também, algumas vezes, considera-se que o abusador estaria bem definido, sendo alguém retraído e que transpiraria o mal. Ainda, existe a suposição de que o pedófilo é alguém que sofreu abuso na infância. A verdade não é tão simples.

A pedofilia e o gênero

Existem muitos pedófilos homens, é verdade. Mas existe também parcela feminina da população que exibe esta parafilia. Apesar de não haverem dados estatísticos seguros, muito porque nem todos os abusos vêm a tona, sabe-se que existem tanto homens quanto mulheres pedófilos.  A diferença está no modo de operar. A mulher, por não ter um membro como o pênis, costuma não deixar as marcas do abuso na vítima. Isto é especialmente verdade quando a pedofilia é de mulher para garoto, não só porque o ato em si é no sentido da mulher ser penetrada ou de ela estimular o garoto de formas que não deixam marcas físicas, mas também pelas diferentes formas com as quais a sexualidade masculina e feminina são encaradas socialmente. Para o garoto é comum a sexualidade ser apresentada como algo da qual ele deve sentir orgulho, da qual ele precisa gostar e usufruir. É do macho gostar de sexo. Então um garoto, por mais doloroso que tenha sido um abuso sexual praticado por uma mulher, não tem abertura para admitir isso. Costuma sofrer calado.

Se a mulher tem um desejo pelo mesmo sexo, aí sim podem ocorrer penetrações, seja com as mãos ou com objetos, que deixem marcas no corpo. Deste modo, fica mais evidente o abuso. Não que não existam também fantasias envolvendo a penetração de um garoto pela mulher, mas elas são menos recorrentes. Neste caso também existirá uma evidência física do ato.

No caso do homem com desejo por garotas, é comum a fantasia da penetração, ainda mais por ser a fantasia de penetração mais comum no público masculino de maneira geral. A penetração não raro ocorre por via vaginal, o que deixa marcas claras do abuso. Daí serem mais frequentemente evidenciados publicamente os casos de abuso sexual envolvendo meninas. Isto não significa que a maior parte dos abusos seja deste tipo, mas apenas que elas tem mais exposição.

Existe ainda o caso de homem com desejo por garotos. Neste caso a penetração anal também deixa marcas, mas pelas razões que mencionei mais acima, elas costumam não vir a tona também. É claro que, ainda relacionado a este assunto, está a maneira como os abusadores enxergam seus objetos.

O abusador camuflado

Como mencionei antes, crer que o abusador ficará evidenciado na sociedade de forma gritante é ingênuo. A grande maioria dos abusadores vive em sociedade da mesma forma que qualquer um. Muito raramente ele exibirá sinais de seu desejo, por saber que a sociedade não o receberá abertamente. O abusador não necessariamente é tímido ou retraído. Tampouco irá abordar crianças sem mais nem menos. É comum que ele esteja “camuflado”, escolhendo profissões que o coloquem em contato com crianças ou visitando locais que elas frequentam também. Aquela imagem do homem oferecendo balinha para a criança é uma boa ilustração disto, apesar de não ser o modo como todos agem. Claro, ele não necessariamente e declaradamente irá oferecer balinhas para as crianças. Mas o abusador frequentemente seduz a criança de alguma forma, convencendo-a de suas ideias e cativando-a em suas vontades.

Por falar nisso, é interessante perceber como o abusador enxerga a criança ou a posição que a criança ocupa no imaginário do abusador.

Abusador x Criança

Para este tipo de abusador a criança é entendida como um inimigo ou alguém que merece sofrer. É provável que sujeitos assim, inclusive, tenham uma estruturação psicótica (eu falo sobre estruturação em uma outra oportunidade). Nestes casos o abusador, próximo ao estuprador “comum”, de adultos, terá prazer em ver a criança sofrer, em ser o causador do sofrimento delas. Eu vi uma vez uma reportagem sobre um grupo de pedófilos assim. Nesta reportagem uma carta foi divulgada. Era assustador.

A prática, para eles, será aquela mais violenta possível. O pedófilo deseja estuprar a criança de fato, fazê-la sofrer. As evidências da violência, como arranhões, contusões e sangue, o atraem e o fazem sentir satisfeito. Ao extremo este abusador pode até matar a criança.

Abusador S2 Criança

Você deve concordar comigo quando digo que devemos amar as crianças, dar-lhes muito amor e carinho. Para este grupo esta ideia também os guia, mas um bocado desvirtuada. Eles entendem que uma criança seria um sujeito completo (no sentido psicanalítico). A criança seria alguém que tem condições de amar romanticamente e o ato sexual seria a consequência ou a demonstração maior desta paixão. Ver a criança ter prazer é o que atrai este tipo de pedófilo.

Na prática eles irão tratar a criança “bem”, dentro do contexto que eles construíram. Ele não forçará o ato, tentará satisfazer sua contraparte e “respeitará” o que ele ou ela pensam e falam. Claro, mesmo neste caso estamos falando de um abuso, pois a criança já não está sendo respeitada naquilo que ela é (e ainda não é) logo do princípio. Cabe ressaltar que os danos para uma prática assim não são só físicos, mas sobretudo psicológicos e sociais.

Abusador abusado

Por fim, falemos sobre esta questão bastante recorrente sobre a pedofilia. Levantou-se a hipótese, ainda quando o estudo sobre esta parafilia iniciava, de que o abusador seria alguém que sofreu abuso quando criança. Alguns casos pareciam confirmar isso, inclusive. Porém, estudos mais aprofundados acabaram demonstrando que esta não é uma regra geral. Ou seja, existem pedófilos que nunca foram abusados, ao menos não sexualmente, enquanto que outros que foram abusados quando criança jamais desenvolveram desejo por crianças quando adultos. Ocorre, inclusive, de abusados irem para o pólo oposto, lutando para ajudar quem foi abusado ou até bloqueando suas manifestações sexuais como um todo. O que se pode dizer com convicção é que o abuso sexual traz impactos no desenvolvimento psíquico e social de alguém.

Finalizando

E é isso, pessoal! Claro que o assunto não está nem próximo de se esgotar, mas estamos falando dele já há algum tempo. É um tópico denso e bastante desgastante. Por isso vou dar uma pausa nele por enquanto. Mais adiante pretendo falar mais sobre isso incluindo as manifestações culturais relacionadas à pedofilia. Fiquem ligados!

Abração

PS: No meu livro eu… Ah, vocês já sabem. Comprem ele clicando na imagem abaixo ;)

wpid-wp-1409615219666.jpeg

 

Publicado em comportamento, Desvio sexual, Parafilia, Pedofilia, Perversão | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Acerca da pedofilia: uma introdução

E aí pessoal!

Hoje o post vai ser um bocado mais pesado, já que o assunto é ao mesmo tempo um crime, uma doença, por assim dizer, e um fenômeno fortemente repudiado socialmente. Hoje falaremos da pedofilia.

Desejo por crianças

Pedofilia

Pedofilia: o que é?

Todos ouvimos falar sobre e alguns até sofrem seus efeitos. A gente até já falou sobre ela aqui no blog, mais de uma vez até. Mas, no geral, ficamos no raso, um pouco por ser algo que a sociedade gostaria que não fosse verdade, que não acontecesse. É como se tentássemos fechar os olhos, como crianças, para coisas ruins, na esperança de que elas desaparecessem. Infelizmente, não é assim que acontece. A pedofilia existe, existiu desde muito antes da nossa era e, provavelmente, continuará existindo no nosso mundo.

A pedofilia é definida no psicodiagnóstico como uma parafilia, ou seja, um desvio severo no desejo sexual. Para o diagnóstico da pedofilia aqui no Brasil, assim como para outras psicopatologias, são utilizados dois manuais: o DSM (Manual Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais) e o CID (Classificação Internacional de Doenças). O primeiro é mais específico, restringindo-se às doenças mentais. Vejamos o que cada um fala sobre a pedofilia:

No caso da edição 10 do CID temos:

Preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes ou no início da puberdade. (CID 10)

E para o DSM, em sua quarta edição, é mais descritivo. Coloco aqui partes mais relevantes:

O foco parafílico da Pedofilia envolve atividade sexual com uma criança pré-púbere (geralmente com 13 anos ou menos). O indivíduo com Pedofilia deve ter 16 anos ou mais e ser pelo menos 5 anos mais velho que a criança.[...](DSM IV)

Destas definições já temos um bom material para conversar. Note que os manuais sugerem uma ação por parte do sujeito. No entanto, se observarmos a definição de parafilia – o grande grupo do qual a pedofilia pertence – veremos que o desejo sexual e a fantasia são suficiente para um diagnóstico:

As características essenciais de uma parafilia consistem de fantasias, anseios sexuais ou comportamentos recorrentes, intensos e sexualmente excitantes, em geral envolvendo

1) objetos não-humanos;

2) sofrimento ou humilhação, próprios ou do parceiro, ou

3) crianças ou outras pessoas sem o seu consentimento, ocorrendo durante um período mínimo de 6 meses (Critério A). Em alguns indivíduos, as fantasias ou estímulos parafílicos são obrigatórios para a excitação erótica e sempre incluídos na atividade sexual. Em outros casos, as preferências parafílicas ocorrem apenas episodicamente (por ex., talvez durante períodos de estresse), ao passo que em outros momentos o indivíduo é capaz de funcionar sexualmente sem fantasias ou estímulos parafílicos. O comportamento, os anseios sexuais ou as fantasias causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério B). (DSM IV)

Ou seja, para fins diagnósticos, a pedofilia poderia ser diagnosticada mesmo que o sujeito não tenha praticado atos sexuais com crianças. Isto já difere da esfera legal, pois lá é necessário que haja o ato para que seja considerado o crime de abuso sexual com crianças (senão cairíamos em uma armadilha do tipo “Minority Report – aquele filme do Tom Cruise).

A parafilia, só para lembrar, é caracterizada pela fixação em um objeto. Não necessariamente um objeto no sentido descrito ali em cima como “não humanos”, mas mais na objetificação. O pedófilo, já que este é nosso tema, vai colocar a criança nesta posição de objeto, objeto que existe apenas para realizar seu desejo sexual.

Mencionei abuso sexual, isto dá um gancho para a continuação da nossa conversa, pois vejo que este post já está se alongando demais. Nos próximos posts, veremos como a pedofilia pode vir a tona em sociedade, especialmente como ocorre o abuso sexual infantil. Fique ligado!

Abração

PS: Em meu livro eu falo sobre as parafilias e sobre a pedofilia, incluindo o abuso. Você pode comprá-lo clicando na imagem abaixo:

wpid-wp-1409615219666.jpeg

Publicado em Desvio sexual, Parafilia, Pedofilia | Marcado com , , , | 1 comentário

Mergulhando na Deepweb

Olá amigos,

Semana passada havia dito que iria escrever sobre uma porção de assuntos com alguma relação com a parafilia chamada pedofilia. Ainda permeando o assunto, gostaria de comentar um pouco sobre a deepweb.

Deeper into the deepweb

Você, ávido websurfer ou navegador da web, deve estar acostumado a utilizar o Google, ou outro buscador, quando quer saber sobre um assunto qualquer ou encontrar conteúdo de seu interesse. Nos habituamos a fazer isso e a impressão que temos é que não existe nada que não esteja coberto pelos tentáculos da internet. Esta impressão é reforçada pela quantidade de referências que uma busca pode retornar. Eu, por exemplo, fiz uma busca aleatória no Google, utilizando o termo cinto de castidade. Mesmo sendo um termo com conteúdo potencialmente adulto, o que reduz boa parte do número de pessoas falando sobre isso, encontrei 118.000 resultados.

Isto, no entanto, é de fato uma impressão. Os mecanismos de busca, como o todo-poderoso Google, não trazem tudo o que existe na web. Pelo contrário. As estimativas indicam que estas ferramentas trazem meros 4% de tudo que existe. O conjunto do que resta é chamado de Deepweb.

A internet é muito mais do que o Google mostra

A Deepweb é um termo técnico utilizado para descrever a parte não indexada da internet. Para entender o que isto quer dizer, precisamos primeiro saber o que é indexação.

Indexa isso pra mim?

Indexar é um termo da biblioteconomia. Traduzido de sua língua de origem, o inglês, significaria algo como incluir no índice.  E é isto exatamente que o Google faz. O algoritmo do Google – que por sinal se chama crawler, em referência a algo com patas, como uma aranha – varre a internet, buscando o que pode ser de interesse. Ao ser encontrado, este algo é indexado, é incluído no índice de resultados do mecanismo de busca. Assim, quando uma palavra relacionada com este termo for inserida no campo de buscas, o algoritmo terá uma correspondência. E assim a gente recebe aquilo que nos interessa. Claro, esta é uma simplificação bem grosseira. Existem muitos outros aspectos envolvidos.

Por que tão poucos resultados?

É uma boa pergunta. Ao que parece, pela descrição, não há nada na internet que o Google não consiga encontrar com seus tentáculos. Por que, então, só 4% é disponibilizado?

Primeiro porque nem tudo na internet está em forma “encontrável” pelos algoritmos de busca. O algoritmo é baseado majoritariamente em palavras. Ou seja, ele não é capaz de ver uma imagem ou vídeo. Logo, apenas o que estiver acessível a esta leitura será indexado. Além disso, os conteúdos na web precisam estar liberados para o mecanismo de busca. Algumas vezes o autor de um conteúdo não está interessado em tê-lo disponível para qualquer pessoa. Então, este conteúdo será bloqueado para os crawlers.

Enfim, existem muitas outras razões para que conteúdos acabem fazendo parte da Deepweb, não sendo meu interesse descrever todos eles. O que nos interessa aqui é termos uma ideia do que este termo significa para então passarmos para o outro significado dele.

A outra Deepweb

O termo Deepweb acabou se popularizando, tendo um outro significado não tão técnico. Esta é também a denominação dada a todo um submundo da rede de computadores. Este submundo existe por duas razões essenciais: o anonimato e a irrastreabilidade  .

Aquele que não deve ser dito

Deepbweb, nestes moldes, é um espaço na qual o usuário não tem uma identidade. Isto é alcançado por um sistema um tanto complicado que “mistura” a conexão de um usuário com a conexão de todo mundo. É como se não existisse diferença entra a sua conexão e a de alguém na Turquia. Você só é conectado ao seu destino. Isto só é possível por existir toda uma plataforma que funciona sob esta premissa, plataformas estas como o Tor.

É esta característica também por trás do segundo aspecto essencial da Deepweb.

Anotou a placa?

Na Deepweb, como você não é ninguém, também não há como rastreá-lo. Assim, uma vez que um conteúdo é disponibilizado ou algo seja feito lá, não existe meios para descobrir quem foi.

Hello darkness, my old friend

A combinação destes dois elementos resulta em um ambiente propício para que surjam coisas pesadas. Neste submundo você pode encontrar desde “desvios” mais leves, como conteúdo pirata ou fotos vazadas de câmeras, até aquilo que é considerado antiético até por aqueles que burlam as leis, como violência sexual, contratação de assassinos de aluguel e, o que nos interessa aqui, a pedofilia. Neste link o autor analisa alguns casos bastante representativos deste tipo de conteúdo:

(CUIDADO! São coisas realmente pesadas. Se você não se sente confortável com violência, melhor não clicar)

http://ahduvido.com.br/os-8-piores-casos-da-deepweb-que-foram-descobertos-por-internautas-da-surface

Isto era esperado e até bastante interessante de se avaliar. Imagine tudo aquilo que fica só na nossa imaginação, aquilo que não devemos nem falar sobre, sob pena de olhares atravessados ou até repreensão declarada. Agora imagine existir um lugar no qual você não só fica invisível, mas também tem acesso a esta parte proibida, sem que sejam feitas perguntas ou julgamentos de valor. Não é difícil imaginar que este lugar atrairia nosso interesse.

E muitos que buscam navegar pela Deepweb são levados pela curiosidade, num primeiro momento. Outros vão um pouco além, buscando não só sanar a curiosidade, mas também resolver um problema de uma maneira heterodoxa, por assim dizer. Mas, claro, um ambiente assim irá atrair também, talvez sobretudo, aquele que já tem uma tendência para o desvio. Dentre eles estão também os parafílicos.

Se é tão ruim, por que existe?

De fato, por serem bastante gritantes, os exemplos ruins que costumamos encontrar relacionados à Deepweb, acabamos nos levando ao questionamento do porquê de ela existir, para início de conversa. Mas ela tem seu lado bom. Alguns locais do mundo, aqueles sob regime autoritário, conseguem acesso ao que existe no resto do mundo através de serviços como este. Algumas revoluções até só foram possíveis com a ajuda deles.

Além disso, não há nada de errado em querer saber sobre um assunto. Algumas vezes isso pode ser fonte de discórdia ou conflitos. Nesse caso o anonimato pode ser justificável. Vale lembrar ainda aquela máxima, garantida inclusive por nossa constituição: tudo que não é proibido, é permitido. A menos que um crime seja cometido, todos têm liberdade para agir. Aquela história de “quem não deve, não teme” não é completamente verdade, pois existem vários níveis de dever e também de temer.

Finalizando…

Vimos que a Deepweb é um lugar na internet.  Em tese, um lugar a mais para que seja exercida a liberdade de expressão. É claro que lá também estão ocorrendo crimes e atrocidades, assim como ocorre no nosso cotidiano. Nem por isso se justifica descartar aquele local completamente, como algo ruim, da mesma forma como não se justifica impedir que todos nós caminhemos pelas ruas por poderem acontecer crimes lá.

Agora já temos mais um referencial para falar sobre o assunto que propus semana passada. Próxima parada: a pedofilia.

Até lá pessoal

No meu livro eu falo sobre estes assuntos cabeludos, como as parafilias e a pedofilia. Você pode comprá-lo clicando na imagem abaixo:

wpid-wp-1409615219666.jpeg 

 

 

Publicado em comportamento, Desvio sexual, Parafilia, Pedofilia, Perversão, sexo na cultura | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

Desvio e parafilia

Olá pessoal,

Com a recente investigação sobre pedofilia na deepweb, fiquei bastante entusiasmado em falar mais sobre este assunto, sendo que as parafilias e o comportamento online são assuntos que me interessam bastante. Senti, porém, que para fazer isso, teria que primeiro preparar o terreno. Afinal, não há como conversarmos de forma compreensível sobre o assunto sem que preparemos as bases teóricas. Então, vamos lá para a fundação sobre o estudo da pedofilia e outras parafilias.

Desvios e parafilia: o desejo tomando outros rumos

Vez por outra ficamos sabendo, seja pela TV ou por notícias na internet, que alguém foi preso sob suspeita de prática de atos de ordem sexual com crianças. Recebemos estas notícias com espanto, não por acaso. Nós, culturalmente, aprendemos desde idade muito tenra que a criança é um ser assexuado e que, portanto, deve ser mantida longe de qualquer referência acerca deste tópico (falei um pouco sobre isto neste post, meu segundo aqui no blog). Como, então, alguém não só a expõe a conteúdos sexuais, mas até ultrapassa este limite, indo ao ponto de praticar o ato sexual com ela?

Se a criança tem ou não algo referente a um comportamento sexual não é o tópico agora, pretendo discutir isso em um post mais adiante. Fato é que a surpresa em saber sobre estas ocorrências escancaram algo que é tão estranho para nós que costumamos ignorar: a de que nem todos nós temos o desejo voltado para os mesmos objetos. Cabe aqui tratarmos do desejo.

Desejo: o combustível sexual.

Em outros posts conversamos sobre o desejo (lembram?). O desejo é o nome que damos para a energia sexual, que está em nós a todo o momento, de origem psicológica. Ela também é conhecida como libido. Este elemento é considerado dentro do ciclo de resposta sexual e alterações nele originam algumas das disfunções sexuais. Estas disfunções, no entanto, dizem respeito a alterações na economia de desejo, por assim dizer. É como se o desejo fosse o combustível, a energia que faz funcionar algo – neste caso o ciclo de resposta. Pouco combustível faz com que o sistema funcione aquém do esperado, excesso faz com que ele se “sobrecarregue”.

Porém existe uma outra maneira do desejo influenciar na sexualidade. Quando ele se direciona para objetos que vão contra o que está estabelecido socialmente.

Objetos

Não, pessoal. Aqui não estou me referindo aos objetos que podemos utilizar durante nossas aventuras sexuais, como estes aqui:

Consolo

Vibrador

Anel para manter a ereção

Anel peniano

O objeto aqui tem sentido abstrato, se referindo aquilo para o qual voltamos nosso desejo sexual. Complicou, né? Vamos simplificar. Imagine que nós, todos nós, temos embutido em nosso aparelho psíquico (naquilo que nos compõe psicologicamente) uma espécie de câmera, como estas de tirar fotografia. Mas esta câmera guarda o que captura de forma limitada, de modo que é preciso, de alguma forma, avaliar o que é importante ou não guardar. Então, só o que é importante que é focado e “fotografado” por esta nossa câmera imaginária. Muito bem, este importante é o desejo. Nossa câmera só vai registrar, só vamos investir ou dedicar espaço interno para aquilo que nos for realmente importante.

Ainda é obscuro, para a psicologia, o que e como se forma o desejo. O que se sabe, no entanto, é que o desejo é algo tão importante que determina como nós nos comportamos em sociedade. Em outras palavras, nosso desejo diz muito sobre o que somos. Isto porque ele não existe isolado do contexto. Pelo contrário, em um momento crítico e determinante para o desenvolvimento psíquico, nosso desejo irá ser moldado de forma definitiva. Este molde não se desfaz mais e é a partir dele que também é constituída nossa personalidade. E este processo tem uma grande carga social. De forma resumida, “aprendemos” a dirigir nosso desejo para objetos, para coisas socialmente aceitas.

Desvios de objeto

Agora sim temos o que precisamos para falar sobre os desvios. Desvios de objeto, na teoria da psicologia, é o nome dado para o investimento de desejo em objetos que fogem aquilo socialmente aceito.  Aqui, você já deve ter notado, começam os problemas. A sociedade é um conjunto de pessoas, pessoas estas que pensam e se comportam de forma singular. Porém, não somos totalmente livres para agir. Podemos considerar, com certa simplificação, que a sociedade é o contorno dentro do qual podemos ser “livres” para nos comportar. Pense assim: se fossemos bois, a sociedade seria o cercado no qual ficamos. Podemos andar ali dentro, pastar o que quisermos dentro daquele limite, mugir e até com quem nos relacionar. Mas só naquilo compreendido pelo cercado. Esta é uma analogia um tanto simples, mas dá a ideia do que seria o socialmente aceito.

No caso da sexualidade o que é aceito socialmente varia um bocado. Estas variações dependem de cada sociedade e também do tempo, o que nos leva para outro problema. Como temos estas possibilidades de comportamento, estes limites dentro dos quais a sexualidade pode acontecer sem ser repudiada, como determinar o que é desviante? Usualmente iremos falar naquilo que é “normal” (lembram que conversamos sobre isto também?). O problema, neste caso, é que o comportamento da maioria irá sobrepor o da minoria.

Os tipos de desvios: dando nome aos bois

“Ok, mas o que é socialmente aceito então?”, você já deve estar se perguntando. É uma pergunta bastante difícil de responder. Se nós restringirmos os limites, se apertarmos ao máximo o nosso cercado, a prática socialmente aceita para a sexualidade seria homem e mulher, casados, tendo relações pênis na vagina, um com o outro e apenas para a procriação. Você irá saltar da cadeira, e eu contigo, pois isto vai totalmente contra a maneira como a sexualidade é vivenciada por nós atualmente, apesar de ainda existirem grupos que insistem em tentar manter esta visão restrita.

Do outro lado, com um cercado bastante amplo, poderíamos incluir no socialmente aceito as variações do ato sexual (oral, anal, vaginal), as variações de parceiro (o sexo casual), e até múltiplos parceiros. O importante a frisar aqui é que dificilmente você encontrará alguém que afirme categoricamente e definitivamente o que é uma prática tida como “normal”, pois disto depende uma série de fatores, dentre eles o contexto social.

Existem algumas práticas que ainda causam certo espanto, mesmo que muitos de nós tenhamos propensão por praticá-los: o sadomasoquismo costuma ocorrer nos relacionamentos em um grau bem reduzido (o tal tapinha não dói); algumas vezes somos tentados a transar em público, algo que é ilegal e socialmente não aceito. Em outras palavras, todos podemos nos desviar um pouco. Mas, então, qual o problema?

O problema surge quando o desvio começa a causar significativo impacto social, psicológico e até fisiológico. Um sujeito que não consegue obter prazer senão transando em público pode ter problemas de ordem social (ter excessiva exposição, causando vergonha e até rompimentos com amigos ou família, por exemplo). Alguém que sente prazer na dor, o masoquismo, pode acabar se machucando gravemente. Quando o desvio atinge estes patamares, quando o próprio sujeito sente e observa que está tendo problemas, aí pode-se considerar o caso de uma patologia de ordem sexual. A diferença aqui é que o sujeito em si está tendo problemas, mas ninguém mais é diretamente afetado por seu desvio. Um caso totalmente diferente é aquele em que o sujeito não apenas só tem prazer por uma prática que foge ao socialmente aceito, mas também esta prática prejudica de forma determinante outras pessoas. Aí entram em cena as parafilias

A parafilia

Parafilias são também maneiras de se obter prazer de forma heterodoxa, assim como os desvios. No entanto, a diferença essencial é que na parafilia a prática envolve outras pessoas e elas são diretamente impactadas por esta prática. Não raro uma parafilia envolve causar um efeito danoso no outro, como machucar ou humilhar. Este, inclusive, costuma ser também a origem do prazer daquele que pratica. Um estuprador, por exemplo, obtém prazer forçando outro a ter relações sexuais consigo. A dor e o sofrimento costumam ser os elementos que trazem este prazer. Outra característica essencial da parafilia é o modo como o sujeito vê concebe o alvo de seu desejo. Neste caso, aí sim, falamos de um conceito mais próximo dos objetos palpáveis que mencionei antes. Para o parafilico o alvo de seu desejo sexual é, inconscientemente, colocado como objeto, algo que só existe para suprir sua demanda por prazer.

Enfim

Acho que com isso temos as bases para conversarmos sobre toda a sorte de desvios e parafilias que desejarmos. Nos próximos posts gostaria de falar mais sobre a pedofilia, considerando a notícia que mencionei no começo do post, e também sobre a deepweb. Estes dois combinados costumam dar o que falar.

Até lá!

PS: Eu falo com mais profundidade sobre os desvios, parafilias e a pedofilia com muito mais profundidade no meu livro. Você pode adquiri-lo aqui:

wpid-wp-1409615219666.jpeg

 

 

 

 

Publicado em comportamento, Desvio sexual, Parafilia, Pedofilia, Perversão, sexo e leis, sexualidade infantil | Marcado com , , , | 3 Comentários

A puberdade no menino

Olá pessoal,

Semana passada falei sobre a puberdade na menina. Ficou faltando falarmos sobre como as alterações desta fase da vida afetam o sexo masculino.

O que muda no rapaz?

Também por volta dos 11 anos, o garoto entra na fase da puberdade. Para nós, além daquelas alterações que são comuns à ambos os sexos, também ocorrem outras bastante características do homem.

O corpo

Fisiologicamente, o corpo muda bastante:

Corpo masculino desde a infância até a idade adulta

As alterações do corpo masculino, antes e depois da puberdade]

A proporção de gordura é menor no homem. Os músculos ficam mais definidos. É agora que o rapaz começa a ficar orgulhoso de seu bíceps ou de sua barriga definida, pois é neste ponto que eles ficam  mais notáveis. A voz também muda, começa a ficar grave como a do William Bonner. E como no caso dos seios para as meninas, a voz aqui costuma ser um sinal, um limite que separa os meninos dos homens. A mudança de voz é um evento marcante e, muitas vezes, engraçado. São comuns situações em que o rapaz é traído por sua voz que,  no meio de uma frase importante ou apresentação oral, se afina subitamente, deixando claro que a idade adulta ainda não chegou completamente. E alguns sujeitos não ficam com uma voz grossa, digna de um locutor de jornal. É algo próprio deles, não sendo um motivo para que se sintam menosprezados. Pessoas famosas têm vozes finas:

Danilo Gentili: a voz fina não impediu uma carreira de sucesso

Gentili tem voz fina e não se deixa afetar por isso

Anderson Silva: você se arriscaria a caçoar da voz dele?

Anderson silva, lutador casca grossa, mas com voz fina

 

Pênis longo

Mas não é só aí que ocorrem mudanças significativas. A região genital também se altera drasticamente. O pênis cresce, tanto em circunferência quanto em comprimento. O saco escrotal desce. É por isso que fica evidente, especialmente em calças mais apertadas, aquele volume entre as pernas. Orgulho para uns, vergonha para outros.

O tamanho se mostra também durante a masturbação, já que o pênis, antes manipulado por dois dedos, agora precisará ser envolvido por toda a mão. Este processo, como os seios das meninas, não acontece igual para todos. Um rapaz pode notar este crescimento logo aos 11 ou 12 anos enquanto outro vai ter que aguardar até os 16 ou 17. É aqui que costuma surgir também o velho e difícil conflito do tamanho do pênis e os problemas relacionados que, não raro, acompanham o homem até a idade adulta.

Agora que me toquei

E, já que mencionamos masturbação, agora ela começa a ficar mais e mais frequente.  Descoberto através dos amigos, o que antes era curiosidade passa quase a ser uma necessidade. Necessidade não só fisiológica, mas também social e psicológica. Nas conversas com amigos acabam surgindo as competições por tamanho e desempenho. É comum que rapazes se gabem por terem pênis maiores ou por conseguirem “gozar” várias vezes seguidas. O rapaz, não querendo ficar para trás, pode ansiar por se masturbar mais para “treinar”. Apesar de ser um ato normal nessa idade, a masturbação em excesso pode implicar em problemas tanto de ordem fisiológica como psicossocial. Alguns casos de ejaculação precoce, por exemplo, têm origem na ânsia em se masturbar rapidamente por receio de ser pego no ato (ou mesmo por, de fato, ser pego no ato).

Ainda falando em gozar, é nesta idade que a primeira ejaculação ocorre. Se antes o rapaz já se masturbava, em determinado ponto será surpreendido por jatos de esperma sendo disparados de seu pênis durante o orgasmo. Sem orientação, pode ocorrer, inclusive, do rapaz não saber o que fazer para se livrar dos vestígios da masturbação, se limpando em lençóis, na roupa íntima ou qualquer outro tecido à mão. Nem preciso dizer que isto implica em questões de higiene, mais um motivo para não deixar de orientar sobre a sexualidade, ao contrário do que se costuma dizer por aí.

Também vêm à tona nesta idade algumas lendas relacionadas à ejaculação. Uma delas diz que o sujeito está perdendo sua força vital ou mesmo “gastando” a capacidade de ter filhos, ao ejacular. Isto, associado ao fato de o rapaz relaxar depois do orgasmo, faz com que ele acredite serem estas lendas verdadeiras. Isto não é verdade. Apesar de a masturbação de fato consumir certo número de calorias, não será ela a razão para a perda de tônus muscular ou capacidade física de modo geral, a não ser que a prática esteja ocorrendo em demasia, o que acarreta problemas, como mencionado antes. E, quanto a capacidade de gerar descendentes, a produção de esperma, espermatozoides incluídos, ocorre ininterruptamente durante a vida do homem. Economizar não costuma trazer benefícios e pode, inclusive, levar a quadros de polução noturna, que também são inofensivos.

Polução noturna: não é xixi, hein!

Alguns rapazes acordam molhados à noite. Isto aconteceu com a maioria de nós. Pensamos que voltamos à infância e acabamos fazendo xixi na cama. Não é este o caso. Quando o rapaz fica muito tempo sem ejacular, a natureza, por assim dizer, dá um jeito de aliviar a pressão. Na maioria das vezes por conta de um sonho mais picante, ocorre uma ejaculação espontânea durante o sono. Aquele líquido todo é, na verdade, o esperma que foi liberado durante a noite. Este processo é conhecido e tem o nome de polução noturna. Não é motivo para preocupação, nem sinal de algum problema de saúde. É importante, porém, que a intimidade seja resguardada. Se você que está lendo é pai ou mãe, saiba que este processo é normal durante a adolescência e deve ser respeitado. Talvez, inclusive, seja uma boa hora para conversar sobre a sexualidade. Afinal, o corpo está indicando que experiências sexuais podem ocorrer.

E é isso…

Claro que este texto não esgota o assunto. São muitas mudanças acontecendo durante o período da puberdade. Mas estes são os tópicos que, do meu ponto de vista, costumam causar mais angústia, tanto para o jovem quanto para os pais, considerando a puberdade do garoto. Outros assuntos estão diretamente relacionados, como as primeiras relações sexuais e a gravidez na adolescência, assuntos que, creio eu, são melhor discutidos em posts separados. Por hora basta termos em mente que as mudanças ocorrem com todos, mas não da mesma forma e que são difíceis de lidar, daí a importância de ter apoio de todos os envolvidos. Eu fico a disposição caso queiram perguntar mais sobre este assunto, bem como qualquer outro de interesse. E existem muitas fontes de informação por aí também. Uma delas é meu livro, que pode ser adquirido ao ser clicada a imagem abaixo:

wpid-wp-1409615219666.jpeg

 

Abração e até a próxima

 

 

Publicado em anatomia, comportamento, ejaculação precoce, orientação sexual, sexualidade do adolescente | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

A puberdade da menina

Olá pessoal,

No post passado havia comentado que escreveria um pouco mais sobre as mudanças na puberdade para a menina e o menino. Então, conforme prometido, aí vão mais algumas informações para o público feminino.

Para a menina…

Puberdade feminina

A mulher, da infância até a idade adulta

O corpo da mulher se transforma drasticamente durante a puberdade. Mudanças na distribuição de músculos e tecido adiposo começam a entrar em cena, resultando em formas únicas e perceptíveis. Ali na figura podemos ver como o corpo, antes bastante indiferenciado começa a gradativamente se moldar para aquele formato característico da mulher.

Viram como eu falei de tecido adiposo? É isso mesmo, garota. Seu corpo tem uma prevalência de gordura, em relação ao garoto. Não me entenda mal. Isto não significa que as mulheres são essencialmente mais gordas que os homens, mas sim que elas possuem formas próprias, pelo arranjo de músculos e gordura em locais do corpo bastante diferentes dos do homem. É esta distribuição única que faz a mulher ter um bumbum redondinho e cochas roliças, por exemplo. Estas formas, claro, não passam desapercebidas. Tanto as outras meninas quanto os meninos começarão a notar a garota. E uma das partes do corpo em que esse efeito é mais evidente é o seio.

Os seios

Também na puberdade ocorre o aparecimento dos seios, evento que tem importância impar para as meninas. Eles passam a crescer como parte das mudanças desta fase da vida. Quanto e até que ponto é um mistério e varia para cada uma. Algumas meninas são precoces. Já aos 10 ou 11 anos estão exibindo as mudanças do corpo que para outras vão acontecer só aos 17 ou 18. Este fato, comumente, leva as meninas a se questionarem: “Por que meus seios não crescem?” ou “Será que estes dois moranguinhos são os meus seios definitivos?”. Calma, garotas. Como disse, as mudanças acontecem à seu tempo. Talvez você só tenha um desenvolvimento tardio. E, para algumas, os seios serão pequenos mesmo. Pessoas famosas têm os seios em tamanho reduzido, sem que isso seja um fator que as denigra:

 

Atriz com seios pequenos

Keira Knightley tem seios pequenos

Isis Valverde com seios pequenos

Isis também tem seios pequenos

Os seios costumam ter uma significação social e impactam psicologicamente na menina. É comum ela se sentir diminuída por ainda não ter desenvolvido seios. E os grupos de meninas costuma ser também cruel. Aquelas que já se desenvolveram acabam excluindo as outras, considerando-as “crianças” por ainda não terem peitos fartos. Isto afeta a auto-estima da menina, fazendo com que se angustie. Muitas até procuram maneiras de acelerar o crescimento deles, tamanha é a angustia. Infelizmente, não existem métodos definitivamente eficazes para fazer isso acontecer. O importante, neste caso, é ter em mente que o seu corpo não deve ser o fator mais importante para lhe definir.

Pelos

Outra característica do corpo que se apresenta com a puberdade é o crescimento de pelos. Eles aparecem nas axilas, virilha, buço e pernas e têm um impacto direto tanto psicológico quanto social. É agora que a garota precisa começar a cuidar mais da aparência e higiene. A famosa depilação, antes algo “de adulto” agora precisa ser considerada. Socialmente estas questões podem causar ansiedade também. Sua família pode ser contra, por questões religiosas ou culturais. Por outro lado, o círculo de amizades e outros ambientes sociais podem ser implacáveis na demanda por um corpo lisinho. Daí muitas meninas terem problemas em lidar com as provocações de colegas por terem as pernas peludas ou “bigodinho de garoto”. Mais uma vez é importante construir um auto-conceito próprio, ter segurança de si e de suas convicções. Saber quem realmente importa para você é um passo fundamental.

Menarca

Mas creio que nada é mais impactante para a garota durante a puberdade que a menarca. Menarca é o nome dado ao primeiro período menstrual. Ela, como todos os outros eventos da puberdade, não tem hora marcada para acontecer e costuma se apresentar nas piores ocasiões. Piores porque as meninas geralmente não estão preparadas para ele. Para muitas ele chega fora de casa e, para piorar, num fluxo muito mais intenso que para as adultas. O resultado é um evento constrangedor no qual a menina se vê suja de sangue em sua região mais íntima e se sentindo sem ter para quem recorrer.

Se isto acontecer com você, não se desespere. Todas as mulheres já passaram por isso, você não está sozinha. Mesmo longe da mãe ou algum parente próximo, você pode procurar alguém que confie como uma professora ou amiga mais velha. Elas, com certeza, saberão como você se sente e ajudarão sem pestanejar.

Os efeitos psicológicos e sociais

A puberdade não afeta apenas o corpo da menina. Ela agora precisa lidar com todas estas mudanças que comentamos e com tudo que vê junto com elas. Uma nova maneira de se comportar precisa ser aprendida, além de ter que lidar com uma nova maneira de existir e com conflitos internos que antes nem sabia existir.

Eu quero!

O desejo sexual é um deles. Ele vai começar a surgir tanto na garota quanto nos garotos que a rodeiam. Este é outro efeito com participação dos famosos hormônios. É agora que as meninas começam a se arrumar e ensaiar as primeiras saídas sozinhas. As famosas baladas e as ficadas vão se tornando assunto entre colegas e amigos. Isso tudo é parte do ritual social ruma à vida adulta e também um ensaio biológico para uma possível perpetuação da espécie. Para cada uma essa pode ser uma fase conflitante. Ao mesmo tempo em que ela pode ainda se sentir menina, também começa a sentir curiosidade e um fogo diferente. Pensar em meninos pode disparar o estopim do desejo.

É aqui que muitas entram em contato com a masturbação. Sim, a masturbação feminina, ainda incompreendida e muitas vezes repudiada. É importante saber que a menina, assim como o garoto, tem desejo sexual e, nesta idade, algumas vezes muito mais forte que a do adulto. Como lidar com este desejo depende de cada garota e de seu círculo familiar e social. Mas reprimir é fortemente desaconselhável. Sabemos, nós adultos, que o desejo não some porque resolvemos não dar vazão a ele. Para o adolescente isto não é diferente.

Junto com os desejos vem também as primeiras indagações sobre o ato sexual. A curiosidade, presente na infância, agora começa a ter um outro contorno, em grande parte em função dos hormônios (eles, de novo). As meninas também, assim como para os garotos, ficam curiosas em saber como é o sexo oposto e junto com esta curiosidade vem o desejo que é estimulado por nossos órgãos sensoriais. Ver, ouvir, cheirar e sentir o outro nos fazem querer algo mais. As questões sobre penetração vaginal começam a surgir, assim como o consequente medo da dor e o recorrente medo de engravidar antes da hora. Além disso, é aqui também que começam a se apresentar as questões referentes a orientação sexual. Talvez a menina comece a se sentir atraída por outras meninas. Lidar com isso costuma ser complicado, tanto para a própria garota como para seus pais e familiares.

Virgindade e Gravidez

A vontade de ter relações, ainda mais quando uma paixão está em cena, é comum. E muitas vezes a falta de orientação, de ter com quem contar e para quem perguntar, faz com que as garotas jovens acabem tendo sua primeira relação sexual sem o devido preparo. Muitas vezes sem o uso de um método contraceptivo seguro, o que pode levar a uma gravidez indesejada. Por isso é importante que a informação chegue para a menina. É muito comum ouvir de pais que “Orientação sexual vai incentivar”. Isto é um engano. A garota provavelmente já está sentindo desejo. Não orientar fará com que ela tome decisões sem o devido conhecimento, só isso.

Também surge nesta idade o medo da penetração. A menina acaba sabendo que o hímen, aquela membrana que recobre a entrada vaginal, se rompe durante o ato sexual, causando dor e sangramento. Adicionado a este compreensível medo está também o fato de que muitas ainda são criadas para protegerem sua virgindade, algo que já conversamos (lembram?). A soma destes fatores não costuma resultar em algo bom. A menina vai para sua primeira vez com receios e medos, preparada para enfrentar uma dor. Imaginem o quanto deve ser estranho, para dizer o mínimo, em ser penetrada por algo que elas, muitas vezes, sequer viram. O irônico disto tudo é que os medos podem acabar por concretizar estas fantasias. Por receio da penetração, a menina pode contrair a musculatura, devido à tensão e ansiedade daquele momento. Como resultado a penetração se torna mais dolorosa do que devia ser. E assim ela confirma que o ato sexual é algo ruim.

Por isso, mais uma vez, botar terror nos assuntos de ordem sexual não traz bons frutos e nem costuma se prestar a seus propósitos. Do contrário teríamos muito menos casos de gravidez indesejada entre adolescentes. É importante que tanto garotas quanto pais fiquem abertos a estas mudanças, que são naturais para o ser humano.

E para os outros?

Mas não é só para as meninas que esta fase é angustiante. Também para aqueles que a cercam. Pais costumam ficar completamente perdidos. E podemos culpá-los? Imagine como seria estranho ver a sua filhinha, que até pouco tempo era bebê, agora desenvolvendo um corpo de mulher bem a sua frente. E com este corpo novo vem também a vontade de sair, a maneira nova de se vestir e, não raro, uma hostilidade sem precedentes. É como se os pais tivessem que aprender a conviver com uma pessoa completamente nova. E é isso mesmo!

Por isso pais e mães (e também familiares e professores) é importante que vocês também se preparem para isso. Saber que esta fase acontece e que é difícil é um bom começo. Afinal, vocês também passaram por isso e devem saber o quanto pode ser penoso. E não pensem que vocês precisam superar estas dificuldades sozinhos. Existem muitos outros que já estiveram nesta situação e até ajuda especializada. A internet, por exemplo, está cheia de informação sobre estes assuntos, inclusive aqui, no meu blog.

Abração

PS: Informação, como vimos, é o melhor caminho para superar esta fase. O meu livro foi feito justamente pensando nestes e em outros problemas de ordem sexual. Você pode adquiri-lo clicando na imagem abaixo:

wpid-wp-1409615219666.jpeg

Publicado em anatomia, comportamento, dúvidas, gravidez., Identidade, métodos contraceptivos, orientação sexual, sexualidade do adolescente, sexualidade feminina | Marcado com , , , , , , , | 1 comentário

Puberdade: mudanças permanentes vêm aí!

Olá pessoal,

Hoje é dia das crianças, o que me levou a pensar sobre que tema poderia ser pertinente aqui para nosso blog. Resolvi discutir sobre algo que não está diretamente ligado à infância, mas que marca nossa saída dela: a puberdade.

Já não sou mais quem eu era

Fenômeno gozado (às vezes literalmente) é esse o da puberdade. Acontece de maneira aleatória tanto em tempo quanto em intensidade. Muda de pessoa para pessoa e, apesar de querermos dominá-la com nossa ilusão humana de onipotência, nunca conseguimos descrevê-la em todos os seus pormenores. Na melhor das hipóteses damos uma visão geral do que acontece mais na média populacional, misturada com nossa própria experiência. Fazemos isso na esperança de ajudar àqueles que estejam passando por essa fase e que estejam tendo problemas parecidos com o que tivemos. É como quando tropeçamos ou caímos em um buraco. A gente faz o possível para avisar outros para que não caiam. Mas neste buraco todos precisamos cair.

A puberdade é o nome que se dá a um conjunto de mudanças, de origem sobretudo fisiológica, que acontece com todo o ser humano. Estas mudanças seriam a maneira da natureza, por assim dizer, nos fazer adultos. São causadas por mecanismos ainda não muito claros cientificamente. Sabe-se que é desencadeada por hormônios e a maneira como ocorre tem origem genética.

Mas, é claro, uma mudança tão profunda no nosso organismo não teria impacto somente fisiológico. As mudanças da puberdade também afetam nossa maneira de nos comportarmos e de nos relacionarmos. Estas mudanças, tanto fisiológicas como psicossociais, diferem para cada um, como eu disse, e também em termos de gênero. Seria seguro dizer que a puberdade marca em todo o nosso corpo o nosso sexo, algo que até então não acontecia. Um corpo infantil é bastante similar para o menino e a menina, com exceção da região genital.

Geralmente é assim…

A puberdade traz mudanças que são comuns a todos. Todos nós crescemos. Nosso corpo começa a espichar. Esse processo é, como eu dizia, aleatório. Os nossos braços não crescem junto com nossas pernas, por exemplo. Um cresce antes que o outro e nos faz ficar desengonçados, interferindo até em nossa habilidade, já dominada, de andar. É por isso que, quando adolescentes, nós costumamos trombar nas coisas e tropeçar. Ficamos desajeitados, pois não sabemos usar esse novo aparato que nos é dado. Não ajuda que estas mudanças aconteçam sem uma definição. A gente tem a sensação de mudar de um dia para o outro.

Também é comum, em ambos os sexos, o surgimento dos pelos por todo o corpo, especialmente nas axilas e na região genital. A maneira de encarar estes pelos é que muda, dependendo do gênero. E igualmente comum é a presença de odores. Agora, tanto rapaz quanto moça começarão a exalar odores característicos. O suor agora fede. A higiene passa a ser uma necessidade para o convívio social.

Estas são as mudanças que se mantém em ambos os sexos. As outras mudanças são bastante peculiares, se considerados o homem ou a mulher, algo que comentarei nos próximos dois posts.

Enfim…

As mudanças da puberdade acontecem, não há como escapar. Como em outras fases da vida, precisamos nos adaptar a ela, tirando o máximo de proveito do que ela traz de bom e tentando contornar os empecilhos que a caracterizam. Para isto é que outros que já passaram por ela estão aí. Você pode perguntar para seus pais, irmãos mais velhos ou amigos, caso tenha dúvidas. E eu estarei aqui também para responder suas dúvidas, naquilo que eu puder. Além disso, existem livros e outras produções culturais que podem te ajudar. Eu escrevi meu livro, por exemplo, justamente para tirar este tipo de dúvida. Talvez sua pergunta possa ser respondida assim também, caso outros meios não sejam tão acessíveis.

Nos próximos dois posts irei falar mais sobre a puberdade, especificamente para o homem e para a mulher.

Abração

Publicado em anatomia, comportamento, dúvidas, sexualidade do adolescente | Marcado com , , | 2 Comentários

Família ê, Família ah, Família…

Olá pessoal,

Com as eleições fervendo aí neste domingo resolvi comentar um pouco sobre um assunto que correu pelos debates de presidenciáveis emissoras afora: a família.

O conceito de família

Todos temos uma noção intuitiva de família. É um  dos primeiros assuntos tratados em uma escola e tão importante que é utilizado para psicodiagnóstico. Arrisco dizer que todos nós, em um ou outro momento da vida, passou ou irá passar por uma família. Mas o que é uma família exatamente?

Se perguntado de supetão você talvez respondesse, assim como eu, que família é aquela em que existe um papai, uma mamãe e pelo menos um filho. Esta é a imagem de família que costumamos comprar por aí. Está na mídia e no nosso discurso, sem que percebamos. No marketing, por exemplo, vemos esta imagem sendo empregada há muito tempo, algo que persiste até hoje. Olha só alguns exemplos:

 

Legalmente também encontramos este conceito sendo replicado. Neste artigo, de autoria da especialista em direito penal Roseana Mathias Alves de Lima, o conceito de família também está associado à união entre um homem e uma mulher com intenção de conceber filhos. Lembro até que nos tempos de faculdade eu tinha uma professora muito indignada com o fato de ela e o marido, sem filhos, não serem considerados um casal.

Estes exemplos parecem reforçar o conceito digamos “tradicional” que temos de família. Mas, não acho exagero dizer, todos nós já nos deparamos com arranjos familiares que divergem destes. Eu mesmo venho de uma família composta na maior parte do tempo por mim, meus irmãos e meu pai. Tinha colegas em que a avó era o único adulto presente. Com estas variâncias notáveis no arranjo familiar, por que então ainda persiste esta imagem de família ortodoxa? A resposta, creio eu, pode ser dada pela psicologia social.

A família estereotipada

A estereotipia, numa perspectiva psicossocial, é a imagem ou conceito partilhado por um grupo ou sociedade. Uma definição inicial do que seria algo, que norteia atitudes e ideias subsequentes. A estereotipia não necessariamente seria ruim. Ela é a ideia inicial, o ponto de partida para encarar um fenômeno. O problema é quando nos limitamos ao estereótipo, sem nos aprofundarmos.

É o que parece ocorrer com a família. Historicamente nossa sociedade caminhou no sentido de formar famílias a partir do homem e da mulher. Talvez por aspectos relacionados à sobrevivência ou por toda aquela questão de posse que discutimos no tópico sobre virgindade (lembram?), o casal com filhos se tornou o “padrão” de família para todos nós. E este padrão perdura na cultura e no nosso imaginário.

Novos horizontes

No entanto, como comentamos também naquela oportunidade, somos seres que diferem dos animais por constituir cultura e por sermos dotados de racionalidade. Isto significa dizer que não é porque algo algo está estabelecido por muito tempo que temos que mantê-lo como está. Caso contrário ainda seria moral escravizar, por exemplo.

A própria ciência vem se moldando em face disso. A psicologia familiar, ao conceituar família, não se prende em elementos concretos ou estanques:

Seguindo a abordagem sistémica, considera-se que a família é um sistema social em que os seus elementos se encontram ligados por uma teia relacional e emocional. Cada família é única e constitui uma entidade global, comum elevado nível de complexidade, separando-se do exterior por fronteiras, mais ou menos permeáveis, através das quais troca informações e recebe feedback, evoluindo e diferenciando-se ao longo do tempo. (Catarina Rivero – Introdução à terapia familiar, abordagem sistêmica)

Ou seja, compreende-se a família cientificamente pela maneira como os elementos de um grupo familiar se relacionam emocionalmente e socialmente. Assim, é muito mais pertinente cientificamente considerar papéis sociais.

E agora José? jogamos tudo fora e começamos do zero?

É claro que não. Não precisamos reinventar a roda para que consigamos utilizá-la. Como disse antes, um estereótipo não necessariamente é ruim, se servir como ponto de partida. É de consenso geral que uma criança, por exemplo, precisa de adultos que se responsabilizem por ela. Se estes adultos são os pais, avós ou tios, pouco importa. O importante é que assumam o papel de responsáveis por educar e amar.

O que não pode mais continuar, e creio estar de acordo com o pensamento vigente, é utilizarmos os estereótipos como forma de manipular e segregar. Durante esta última campanha eleitoral vi alguns candidatos se apropriando levianamente destes conceitos estereotipados de grupo familiar para incitar uma diferenciação. Como se uma família composta por homem e mulher, casados e com filhos fosse mais legítima que outros arranjos familiares. São posicionamentos preconceituosos e sem respaldo científico, características que não deveriam estar presentes na ideologia de um futuro governante do nosso país e nem na ideologia de todos nós como sociedade. É hora de revermos estes conceitos.

Abração pessoal

PS: Eu discuto sobre família e filhos no meu livro. Você pode comprá-lo clicando na imagem abaixo:

wpid-wp-1409615219666.jpeg

 

Publicado em mídia, orientação sexual, Vida a dois | Marcado com , , | Deixe um comentário

Intolerância Zero

Olá pessoal,
Como sabem eu costumo postar no domingo. Porém resolvi abrir uma exceção para falar de um assunto que considero de suma importância. Ainda mais sabendo que as eleições estão na nossa porta.

Hoje pela manhã, ao olhar o Facebook, me deparei com esta imagem:

Charge bem humorada feita por Laerte com uma crítica ao posicionamento do candidato à presidência Levy Fidelix.

Charge de Fidelix, feita por Laerte.

Confesso que estava por fora. Não havia acompanhado o debate feito na Record, na noite de ontem. Curioso acabei descobrindo do que se tratava através de um grupo de discussão que acompanho. A charge bem-humorada critica o posicionamento do candidato à presidência Levy Fidelix acerca de um tópico importante e sempre polêmico. Penso ser melhor ouvirmos o próprio candidato antes de continuarmos:

Os mitos no discurso dos anti-homossexuais

A pergunta da candidata Luciana Genro era sobre a violência contra os homossexuais. O candidato não só pôs os pés pelas mãos ao não dar o devido encaminhamento à pergunta como escancarou seu posicionamento preconceituoso e discriminatório quanto ao homossexualismo. E pior, na minha opinião, nem tenta sustentar suas opiniões de forma objetiva. Pelo contrário, cai no lugar comum de outros que se opõem aos direitos dos homossexuais, como fez a (infelizmente) também representante nossa no Estado Myrian Rios, há alguns anos.

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/06/myrian-rios-causa-polemica-ao-relacionar-gays-com-pedofilia-no-rio.html

Relacionando de maneira absurdamente equivocada a homossexualidade à pedofilia. Mas não são só estes pontos que são defendidos de maneira bastante similar por ambos os políticos e que, parece, compõem uma concepção de mundo que é partilhada por muitas pessoas hoje. Vejamos alguns destes pontos:

Pedofilia e homossexualidade têm relação

Ambos Levy Fidelix e Myrian Rios, em seus discursos, sustentam que a homossexualidade e a pedofilia teriam algum tipo de relação. Fico pensando de onde esta ideia surge, como ela ganha contornos e representação entre aqueles que se opõem à homossexualidade. Não consigo evitar de pensar que isto se deve ao fato de, historicamente, a homossexualidade ter sido classificado como transtorno de personalidade, assim como ocorre com a pedofilia até hoje.

Houve um tempo, e não faz muito, em que a homossexualidade era classificada como transtorno de personalidade. Até a terceira edição do DSM (Manual Diagnóstico Estatístico de Doença Mental) a homossexualidade e a pedofilia apareciam classificadas como transtornos. A partir da quarta edição, com todas as mudanças sociais e científicas, foi feita uma correção. A homossexualidade não mais deveria ser encarada e tratada como transtorno.

Mas, é claro, não seria uma mudança na teoria que faria toda uma corrente de pensamento mudar. Imagino que seja este, esta cristalização da teoria já ultrapassada, que mantém o posicionamento equivocado até os nossos tempos. Gostaria de falar mais sobre esta questão de pedofilia, homossexualidade e diagnóstico em outro post, não é este meu foco principal hoje.

Homossexualidade irá erradicar a raça humana

Um dos pontos altos da resposta de Fidelix ontem foi este:

O Brasil tem 200 milhões de habitantes. Se começarmos a estimular isso aí daqui a pouco vai reduzir para 100.

Esta frase, que aparece comumente no discurso anti-homossexualidade, demonstra uma preocupação quanto a perpetuação da espécie. É claro que esta preocupação não é a razão principal ao defender a perseguição aos homossexuais. Vejo isto como um contorno, um disfarce que se utiliza de uma constatação objetiva e científica para manter o preconceito e discriminação.

Já fui questionado sobre algo neste sentido. Supondo um mundo em que seriamos todos homossexuais, seria este o fim da humanidade? Eu disse categoricamente que não. Veja, o que nos diferencia como espécie é a capacidade de pensar e, por consequência, de produzir cultura. Obviamente não permitiríamos que o mundo acabasse. Mesmo em um ambiente que o coito entre homem e mulher fosse repudiado, ainda assim poderíamos, através da cultura, criar um artifício cultural que perpetuasse a raça humana. Um ritual no qual, uma vez na vida, um homem e uma mulher partilhariam da relação sexual, mesmo sem querer, a fim de que filhos fossem gerados.

Parece absurdo para nós, não é? Pois artifício parecido existe na nossa cultura.  A primeira vez do casamento é um exemplo. A consumação do casamento é uma construção humana cultural que visa garantir que os herdeiros que venham a seguir sejam fruto daquele casal e não de uma relação extra-conjugal. O próprio tabu da virgindade serve a este propósito também.

Perpetuação da espécie, inclusive, poderia não ocorrer através do ato sexual, como hoje. Existem até filmes e livros, como Gattaca e Admirável Mundo Novo, nos quais a reprodução é controlada e não mais ocorre ‘naturalmente’, hipóteses estas perfeitamente plausíveis.

Fato é que somos seres singulares na Terra. O ato sexual há muito deixou de ser apenas forma de reprodução. Ele é uma maneira de obtermos prazer, demonstrarmos afeto e até produzirmos cultura. Continuar a se esconder atrás da reprodução para defender posicionamentos preconceituosos não funciona mais.

Homossexualidade é causada

Na mesma frase o candidato Fidelix demonstra compactuar com a ideia, comum entre os anti-homossexuais, de que a homossexualidade é causada por fatores externos e que, da mesma forma, pode ser combatida – e combatida é o termo apropriado aqui, pois nesta corrente de pensamento, a homossexualidade é vista como algo ruim, uma doença a ser enfrentada. Estes fatores incluiriam educação e reforçamento dos valores tidos como corretos, como a família tradicional. Ainda defendem o combate às influências tidas como negativas, como a diversidade cultural, o respeito à pluralidade de manifestações culturais e, principalmente neste caso, o resguardo de direitos para grupos minoritários, particularmente para homossexuais.

Implícita nesta maneira de enxergar os homossexuais está a crença de que existe uma maneira adequada de se portar e que outras maneiras de ser, então,devem ser combatidas e removidas. Como se aqueles que são diferentes e se portam diferente fossem a parte podre de uma maçã. Nas palavras do próprio Fidelix:

[...]estes que têm estes problemas que sejam atendidos nos planos psicológicos e afetivos, mas bem longe da gente.

Esta, creio eu, é a parte mais grave do discurso do candidato.

Por que a bandeira anti-homossexualidade é preocupação de todos

Agora, você caro leitor ou cara leitora que não é homossexual ou tem certa resistência para com a homossexualidade pode até estar pensando ‘O que isto tem a ver comigo, afinal?’. Muitos de nós pode crer que defender um grupo minoritário como os homossexuais não é uma luta nossa, assim como acontecia há anos com os negros. Digo-lhes que estão errados. Ao fechar os olhos para algo que não está certo agora, por não nos atingir diretamente, nos faz compactuar com isso. O que está em jogo aqui não são os direitos de um grupo qualquer. Esta é só a face atual de uma luta que vem acontecendo desde sempre. O que permeia esta discussão são noções fundamentais e elementares do que é o ser humano e do que ele pode ou não ser e fazer. Os direitos fundamentais.

É óbvio que precisamos de leis. São elas que mantém a sociedade funcionando como é. Porém, estas leis devem ser criadas com base em preceitos e noções imparciais e objetivas, com vistas ao bem comum. Quando começamos a perseguir alguém por razões subjetivas como repulsa ou nojo, como acontece com a homossexualidade hoje, acabamos não só por tomar decisões que provavelmente estarão em desacordo com a pluralidade própria de uma sociedade como, não querendo soar egoísta, acabamos também abrindo mão de direitos nossos, sem perceber. E isto vale também para quando nos calamos em face de algo que é errado. Para terminar imagino que esta mensagem, de Martin Niemoller (adaptando poema de Vladimir Maiakoviski), expresse bem o que quero dizer:

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse

PS: Eu falo mais sobre a homossexualidade (incluindo a polêmica questão sobre opção sexual), virgindade, desvios, parafilias e tabus no meu livro. Você pode comprá-lo clicando na imagem abaixo.

wpid-wp-1409615219666.jpeg

Publicado em comportamento, Desvio sexual, mídia, orientação sexual, Pedofilia, Perversão, posts temáticos, sexo na cultura | Marcado com , , , , , | 1 comentário